Frequências Mágicas – 432, Solfeggio e mais
", 14 de junho de 2020"

Com a popularização do sound healing, ou terapia do som, assistimos a uma crescente oferta de produtos sonoros (meditações, terapias, etc.) que fazem referência a determinadas frequências que, segundo seus proponentes, tem poderes especiais de cura. Frequências Mágicas – 432, Solfeggio e mais te dará informações importantes para decidir por você mesmo se elas de fato possuem os poderes que lhe são atribuídos.

INTRODUÇÃO

Uma breve pesquisa no Youtube com o termo “frequências de cura” nos leva a uma infinidade de vídeos que prometem curas milagrosas dos mais diversos tipos, que usam frequências específicas como 432, 741, 111 e por aí vai. Eu contei dezenove, mas com certeza existem mais.

Será que eles entregam o que prometem?

Há também um número cada vez maior de terapeutas que usam o som em seus atendimentos, e muitos defendem que determinadas frequências possuem maior poder de cura e harmonia do que outras. Aqui a já famosa 432 Hz reina absoluta.

Mas será que uma frequência específica pode ter “mais poder” do que outras?

Do que exatamente estamos falando?

Nas próximas linhas vou lhe mostrar alguns aspectos importantes desse assunto bastante espinhoso.

Primeiro vou começar alinhando alguns conceitos importantes de forma bastante superficial e simples, de forma que qualquer pessoa possa entender. Depois entramos no assunto propriamente dito, para finalmente chegar na minha conclusão.

E um aviso: o que se segue é apenas a minha opinião. Aproveite o que lhe servir, pesquise mais e use a sua capacidade de discernimento para construir a sua própria.

Discernimento é a palavra-chave nesses tempos de fake news. Ele evita o comportamento de boiada.

Como disse o Buda:


Ó monges, assim como um ourives testa seu ouro,
derretendo, cortando e friccionando,
os sábios aceitam meus ensinamentos após um exame completo,
e não apenas por devoção a mim.

 

ALINHANDO CONCEITOS

Vamos começar definindo o termo frequência da forma mais simples possível, já que um exame minucioso levaria a um mergulho no campo da física.

Frequência pode ser definida como “o número de ocorrências de uma determinada vibração, ou oscilação, por unidade de tempo”.

Como outras medidas, por exemplo quilometro ou litro, possui uma unidade específica para medi-la, que é chamada de Hertz, abreviação “Hz”.

Assim, 100 Hz significa uma vibração que oscila para cima e para baixo (grosso modo), 100 vezes em um segundo.

Agora vamos falar um pouco do som.

O som é uma vibração mecânica do ar e se  propaga pela movimentação das moléculas de oxigênio. Quanto mais rápida é esta vibração, maior é a frequência. Quanto mais lenta, menor.

O espectro de frequências sonoras que um ser humano é capaz de ouvir vai aproximadamente de 20 Hz a 20.000 Hz (ou 20 KHz).

Isso não quer dizer que frequências menores ou maiores do que estas não existam. Animais como as baleias ou até mesmo nossos cães e gatos ouvem um espectro maior do que o nosso.

Outro ponto muito importante é que as ondas sonoras que ouvimos não são puras. Ondas puras são como as da figura acima, mas não são agradáveis de se ouvir. Falta-lhes brilho. Escute a seguir dois exemplos de ondas puras e tire suas conclusões.

Frequência baixa - 250 Hz

Freqüência alta - 10 KHz

Os sons da natureza, incluindo a nossa voz, não são puros porque são ricos em diferentes frequências.

O canto, seja de um pássaro ou do ser humano, os acordes de um violão ou a melodia de uma flauta são compostos de milhares de diferentes frequências, chamadas harmônicos.

 

O SOM NOS LEVA PARA A MÚSICA

A música é o som organizado.

Em algum momento da história da música ocidental surgiram as notas musicais. Sete notas que todos conhecemos, e que dão origem a todas as músicas que já ouvimos.

Quando essas notas são combinadas de uma certa forma no tempo, surge a melodia, a harmonia e o ritmo, que formam a base de qualquer música.

A melodia é a música que cantamos ou assobiamos. O ritmo é o pulso, as batidas involuntárias do nosso pé. A harmonia é a sensação que a música produz em nós, o que sentimos quando ouvimos.

É claro que a música é muito mais do que isso, mas já temos a base necessária para prosseguir.

A música nos afeta de forma significativa. Podemos ficar alegres ou tristes, em suspense ou eufóricos, tudo isso produzido por uma sequencia de sete notas musicais.

Todos sabemos, na prática, como a música nos afeta, e sem precisar saber nada de teoria musical.

 

A MÚSICA PRECISA DE UM PADRÃO

A maioria de nós sabe que as notas musicais são: Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si.

O que muitos não sabem é que a cada uma delas é atribuída uma frequência.

Isso não é feito de qualquer jeito. Para começar, vamos imaginar que por definição decidimos que a nota Lá será associada a frequência de 440 Hz.

A partir dessa definição, e usando a teoria musical, todas as outras notas terão suas frequências estabelecidas. O Dó será 261,63 Hz, enquanto o Si será 493,88. Você pode encontrar a relação nota musical x frequência na Internet ou em aplicativos no celular.[1]

Note que se mudar a referência (Lá=440), as frequências das notas também mudam.

E porque a música precisa de um padrão?

Imaginemos uma orquestra, que é composta de muitos instrumentos musicais diferentes entre si. Violinos, violas, flautas, oboés, piano, gongos, entre outros.

A pergunta é: existe um padrão de afinação para a orquestra como um todo? Ou cada um pode afinar o seu instrumento da forma que desejar?

Você certamente já percebeu que antes da apresentação os músicos da orquestra começam a tocar seus instrumentos de uma forma estranha, como que querendo chegar a algum lugar. É nesse momento que cada um está afinando o seu instrumento.

E para isso precisam de um padrão.

Do contrário, nossa experiência auditiva não seria boa. A música não soaria bem aos nossos ouvidos.

O padrão pode ser qualquer um, mas é vital que seja o mesmo para todos os componentes da orquestra.

Esse padrão existe, e atualmente é definido como a nota Lá igual a frequência de 440 Hz.

Mas porque não 442 Hz ou 439 Hz ou qualquer outra frequência?

Ora, assim como em algum momento alguém definiu quanto é um litro de água, ou um quilometro, dessa mesma forma alguém (nesse caso uma entidade) definiu esse padrão na música.

Na verdade, ao longo dos séculos esse padrão mudou muitas vezes, a ainda hoje está longe de ser um consenso. Muitas orquestras ao redor do mundo tocam em afinações diferentes do Lá=440.

Apesar disso, a maioria absoluta das músicas que ouvimos estão afinadas nesse padrão.

 

COMEÇAM OS PROBLEMAS

Por um motivo que vou explorar em profundidade em outro artigo, um certo Instituto Schiller começou a propagar que a afinação Lá=440 foi definida para nos controlar e fazer mal.

Fake news, sempre elas! Por causa dessa mentira, em muitos círculos 440 Hz já é conhecida como “frequência do mal”, que produz a “música do mal”.

Disseram que os nazistas empurraram “goela abaixo” essa frequência na reunião de 1939, onde ela foi definida.

Se você acredita nessa história, ou quer saber os detalhes do que realmente aconteceu, sugiro que pesquise em profundidade. Está tudo aí na Internet. Ou aguarde meu artigo em breve, onde contarei tudo em detalhes, citando as fontes.

Mas deixo aqui algumas perguntas:

As orquestras que tocam hoje afinadas em Lá=440 as músicas divinas de Mozart, Beethoven e Bach estão fazendo música do mal?

Músicos pop espirituais como George Harrison estão fazendo música do mal?

Quando toco minhas tigelas de cristal afinadas em Lá=440 estou fazendo o som do mal?

Ouça e tire por si mesmo as conclusões. Siga o conselho de Buda, que está no começo desse artigo.

Na minha experiência, escutar Bach, Mozart e Beethoven é divino. Escutar George Harrison é divino. Tocar e escutar as minhas tigelas de cristal é divino.

 

SOM, MÚSICA, TERAPIAS E ESPIRITUALIDADE

Quatro fatos são importantes para contextualizar a chegada do som e da música nas terapias complementares:

  1. O ressurgimento do som como modalidade terapêutica;
  2. A popularização dos mantras no ocidente;
  3. O surgimento da música digital e a descoberta do som bineural;
  4. O aparecimento de instrumentos acústicos como as tigelas de cristal e de metal.

O som e a música de meditação começam a se tornar protagonistas. Terapeutas das mais variadas linhas começaram a usar o som como facilitador em seus processos.

Surgem os terapeutas do som (sound healers), que usam instrumentos e técnicas variadas para tratar pacientes utilizando som e frequências.

O campo começa a se desenvolver, principalmente nos EUA. Técnicas de uso de diapasões, gongos, tigelas de metal, entre outros instrumentos tornam-se mais e mais comuns.

Mas, diferente da musicoterapia, que exige uma graduação e já é quase uma profissão regulamentada, o terapeuta do som faz a sua própria formação, baseando-se nas descobertas de pioneiros no campo.

Hoje, décadas depois de tudo ter começado, o sound healing é vasto, muito vasto. E muita coisa cabe dentro dele.

E nessa vastidão as pessoas ligadas a espiritualidade acharam um espaço para expressar sua criatividade e anseio. Afinal, a humanidade usa o som de forma mística e espiritual há milênios.

Nada mais natural que junto com a modalidade terapêutica também ressurgisse o aspecto mais espiritual do som e da música.

Isso deu a essas pessoas mais místicas e espirituais a liberdade de associar certos conhecimentos ditos “ocultos” com o som, e afirmações vagas passaram a ser tomadas como verdadeiras.

É nesse contexto que surge a 432 Hz, que aos poucos foi se elevando como uma frequência “especial”.

 

432 HZ – FREQUÊNCIA MÁGICA?

Dois discursos tornaram-se recorrentes nos defensores da 432:

  1. É uma frequência mais “próxima da natureza”;
  2. É uma alternativa melhor ao 440 Hz, a “frequência do mal”.

Os dois discursos se juntaram, e um grande número de justificativas esotéricas foram criadas, quase todas sem nenhum fundamento, para dar credibilidade ao uso desta frequência como padrão.

Apelando para a fé cega de seus seguidores, essa nova “religião” começou a se formar, e músicas e frequências nesta afinação começaram a ser produzidas e vendidas como uma solução melhor do que a 440.

Hoje o Youtube está cheio de música em 432 Hz, inclusive de bandas mega populares como Pink Floyd, Queen e Beatles. Você vai encontrar muitas versões de músicas famosas em 432.

Até aí tudo bem, afinal é só mais uma frequência de afinação. Questão de gosto pessoal. Poderia ser 433, 434, 441 ou 442, tanto faz.

O problema começa a ficar sério quando as pessoas tomam partido, dizendo que 432 é a frequência milagrosa da natureza que todos devem usar.

Fé cega, mentalidade de rebanho! O único e o melhor remédio para isso é a informação.

Tenho uma história para contar a esse respeito, uma oportunidade para cada um de nós se colocar no lugar da pessoa que produz a música e que possui uma intenção amorosa por trás.

Trata-se de nossa amiga Ashana, musicista que utiliza as tigelas de cristal com outros instrumentos e sua linda voz.[2]

Dentre muitos álbuns e músicas, que você pode conferir no Youtube e Spotify, ela tem uma que eu particularmente amo, que é a “Ave Maria”.

Como todas as suas músicas, foi gravada na afinação de 440 Hz.

Aconteceu então que uma pessoa pegou essa música do Youtube, passou em um programa de computador que a transformou em uma música afinada em 432 Hz.

Não contente com isso, essa pessoa publicou-a dizendo que era uma versão mais “curativa”.

Nossa amiga então gravou um vídeo desabafando, falando de seu sentimento com relação a esse ato irresponsável, de alterar a obra de uma artista sem o seu consentimento.

E tudo isso em nome da cura.

Eu pergunto:

Isso está certo? É algo que gostaríamos que acontecesse conosco? Será que a Ave Maria em 432 fará mais milagres do que a Ave Maria em 440?

Entendo que exista uma tendência a “endeusar” e “coisificar” que é nata do ego humano.

Mas essa é uma tendência perigosa, com um potencial enorme de nos distrair do essencial. É por isso que esse artigo está sendo escrito.

Você pode escolher usar seus instrumentos e escutar música afinada em 432 Hz.

Ok, sem nenhum problema, é uma questão de gosto pessoal.

Eu adoro tocar as tigelas de cristal em 432 Hz.

Mas eu não “endeuso” ou “coisifico” essa frequência, porque não existe nenhuma evidência consistente para isso, pelo menos não até esse momento e que seja do meu conhecimento. Estou aberto a contra argumentações.

Tudo aquilo que “endeusamos” torna-se o nosso deus. E isso nos afasta de Deus e nos aproxima do ego.

Deus está em todos as frequências, Deus está dentro de nós.

 

ALÉM DAS FREQUÊNCIAS MÁGICAS – 432, SOLFEGGIO E MAIS

Da mesma forma que o 432, uma parte da comunidade “espiritualizada” ligada ao sound healing começou a “coisificar” e “endeusar” as frequências solfeggio.

Trata-se de seis frequências supostamente milagrosas que foram descobertos por um tal Dr. Joseph Puleo (desafio você a encontrar referências consistentes sobre essa pessoa na Internet) e divulgadas pelo Dr. Leonard Horowitz, um pesquisador ligado a área da saúde complementar.

Cada uma dessas frequências – 396 Hz, 417 Hz, 528 Hz, 639 Hz, 741 Hz, 852 Hz – possui uma propriedade específica, que “cura” determinado mal. Uma das mais conhecidas, 528 Hz, está ligada ao “reparo do DNA” e ficou conhecida como a frequência do amor.

Note que os números de cada frequência têm um padrão de repetição. Esse foi o padrão encontrado pelo Dr. Puleo dentro da Bíblia, e que confere a cada uma dessas frequências uma qualidade milagrosa.

Animados com esse campo tão vasto e instigante, as pessoas começaram a colocar as suas próprias frequências, e hoje no Youtube você pode encontrar inúmeras outras frequências milagrosas.

Conte inclusive com a “tudo em um”, que promete curar tudo junto.[3]

E assim chegamos a banalização do “sound healing”, um campo sagrado do conhecimento humano exposto a pessoas que são ou mal intencionadas ou inocentes ignorantes.

 

EXISTE CIÊNCIA POR TRÁS DISSO TUDO?

Sim, existem alguns cientistas publicando trabalhos nessa área.[4]

São poucos ainda, e acredito que a tendência é aumentar.

Os resultados ainda não são conclusivos, porque a amostragem é ainda muito pequena.

Os trabalhos científicos mais numerosos e que vão numa outra linha estão ligados a neurociência, em como a música afeta o nosso cérebro.

Este é um campo em franco crescimento, mas que foca exclusivamente em música, e não em frequências.

 

CONCLUSÃO

Com mais de dez anos de experiência no campo de sound healing,  tocando e em contato diário com as tigelas de cristal e os instrumentos de quartzo, não acredito em frequências mágicas.

O som é uma ferramenta abençoada e muito importante nesse momento da humanidade, e é triste para mim ver tanta banalização.

Muito dessa banalização vêm por desconhecimento, e esse artigo tem o objetivo de estimular você a procurar informação mais consistente para que não caia nesse lugar.

Mas uma parte vem de pessoas interessadas apenas em vender seus produtos e serviços, que se baseiam nessas frequências mágicas. Isso é triste de ver.

Um dia poderá chegar em que frequências serão utilizadas como hoje tomamos remédios para dor de cabeça. Não duvido disso.

Mas esse será um instrumento tão poderoso que é melhor estarmos internamente preparados para utilizá-lo. Um remédio potente em mãos erradas pode produzir um grande estrago.

Enquanto isso, acredito que o mais importante e essencial é usarmos o poder da nossa intenção, do nosso pensamento, junto com o som que estamos produzindo. E que seja uma intenção amorosa, compassiva e feliz, pois ela com certeza transformará o mundo.

Digo e repito minha crença: todas as frequências são divinas. O som é simplesmente o mensageiro, o portador que carrega as nossas intenções, que amplifica o que pensamos e sentimos.

Sempre que “endeusamos” seja uma frequência, seja um instrumento, uma pessoa ou qualquer outra coisa, estamos desviando a nossa atenção do essencial.

É tempo de usarmos o som e as frequências para descobrirmos mais sobre nós mesmos e sobre a nossa natureza divina.

E não precisamos de frequências mágicas para isso.

Luiz Pontes

Junho de 2020

Reprodução autorizada desde que citada a fonte.

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REFERÊNCIAS

  1.    Carltune – https://play.google.com/store/apps/details?id=com.brainting.carltune&hl=pt_BR
  2.    Ashana Music – www.ashanamusic.com
  3.    Frequencias de Cura tudo em um – https://www.youtube.com/watch?v=XChJK8iYneQ
  4.    Trabalhos científicos com frequências:
    • Akimoto, K., Hu, A.L., Yamaguchi, T. and Kobayashi, H. – (2018) Effect of 528 Hz Music on the Endocrine System and Autonomic Nervous System. Health, 10, 1159-1170. https://doi.org/10.4236/health.2018.109088
    • Babayi T.,  Riazi, G.H. –  The Effects of 528 Hz Sound Wave to Reduce Cell Death in Human Astrocyte Primary Cell Culture Treated with Ethanol – Journal of Addiction Research and Therapy
    • Aravena, P. C., Almonacid, C., Mancilla, M.I. – Effect of music at 432 Hz and 440 Hz on dental anxiety and salivary cortisol levels in patients undergoing tooth extraction: a randomized clinical trial

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